No tempo em que não se criava polêmica por qualquer coisa, tínhamos aula de catecismo normalmente.
Meu catecismo era um opúsculo colorido, aproximadamente com umas 25 páginas, contendo os ensinamentos primários da Igreja Católica. Para ministrar as aulas, tínhamos uma professora muito dedicada.
Os temas eram escritos em linguagem simples e de fácil entendimento. Lembro-me bem destas passagens: “Sois cristão? Sim, sou cristão pela graça de Deus.” “Quem é Deus? É um espírito perfeitíssimo criador do céu e da terra.”
Havia fotos e desenhos. A imagem mais forte que ficou na minha memória foi a de uma escada longa subindo para o céu, e lá em cima, entre as nuvens, aparecia um deus carrancudo.
Agora, após tantos anos, chego à conclusão de que aquele catecismo foi meu primeiro contato com a ética, não só com a ética cristã, mas com a ética em geral. As aulas para explicar os dez mandamentos eram verdadeiras lições de ética, pois apresentavam parâmetros para uma convivência sadia com o outro, no seio da sociedade. Tínhamos a informação de que precisávamos desenvolver um comportamento moral, baseado em valores fundamentais de respeito ao próximo e aos seus bens, inclusive o bem da vida.
Daquele catecismo aprendíamos a fazer a diferença entre o certo e o errado, entre o permitido e o não permitido. Tínhamos ali um roteiro elementar de conduta.
O quarto mandamento – honrar pai e mãe –, bem explicado, nos fazia descobrir que tínhamos o dever de gratidão pelos pais. Com a visão que a ética contemporânea aponta, a postura de que falava a professora conferia aos filhos o dever de cuidar dos pais idosos e não abandoná-los, como constantemente temos visto.
No quinto mandamento – não matar – está a norma de proteção do bem maior, que é a vida. Não só a vida, mas todo tipo de violência que se propaga nos dias atuais, inclusive contra a mulher.
Vejam só como permanece atual esse decálogo éticode tantos séculos de existência. Ao condenar o levantamento de falso testemunho, no oitavo mandamento, temos a preocupação com a preservação da verdade, tão vilipendiada na sociedade atual, contaminada pelos algoritmos e pelas fake news.
Por fim, lembro a ênfase que a professora dava ao “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. O debate que se seguia sobre essa frase foi meu primeiro encontro com o que chamamos hoje de alteridade, o respeito pelo rosto do outro. Aplicada com o ethos que a contém, ela afasta qualquer preconceito para aceitar o próximo como ele se apresenta para nós.
As crianças de hoje trocaram esses catecismos pelas lições precoces e desregradas da internet. Não avaliam o que estão perdendo.
Lourival de Jesus Serejo Sousa nasceu na cidade de Viana, Maranhão. Filho de Nozor Lauro Lopes de Sousa e Isabel Serejo Sousa. Formou-se em Direito, em
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