A RAZÃO DESUMANA

Após a leitura do livro A razão desumana, de Eugênio Bucci, senti-me compelido a compartilhar com o leitor a mensagem do autor.

O título da obra já traz um paradoxo: como falar de razão desumana, se a razão é inerente exclusivamente ao ser humano?

É justamente nesse ponto que se concentra o alarme: os aparatos técnicos estão se apoderando do conhecimento e dos sentidos reservados apenas aos humanos. Então, explica o autor que a razão desumana está acima da técnica e não se limita aos cálculos.

Ela fala, escuta, cria envolvimento romântico e erótico, levando o usuário dos seus serviços ao êxtase desumano. Ela captura o desejo, a mente, o olhar. É um espírito, um fantasma digital ligado por uma tomada.

No momento em que a mente de uma pessoa desavisada adere a uma desinformação, ela perde sua racionalidade, fica cega e embrutece o espírito. Introjetar a “razão” algorítmica sem qualquer juízo crítico é sufocar a racionalidade.

A célebre pergunta de Pilatos a Cristo – o que é a verdade? – desponta com uma atualidade angustiante, no momento em que a verdade factual está perdendo espaço para a montagem. E por falar em Cristo, até as religiões podem ser dominadas, se não direcionarem os avanços da inteligência artificial ao seu favor, se não aderirem às novas formas de comunicação e captação das mentes e corações. O mercado não perdoa, mata.

Mata ou alucina com seus meios de propaganda sofisticada.

Uma das resistências que Eugênio Bucci aponta para enfrentar o domínio da razão desumana é cultivar o autoconhecimento e saber distinguir as diferenças. Um ponto negativo desse avanço tecnológico é desestimular o encontro físico com o próximo. Daí a necessidade de recolhimento (numa biblioteca, por exemplo) para fortalecer o espírito e buscar a presença do outro.

A essa sugestão, tomo a liberdade de acrescentar a dúvida, tão bem difundida por René Descartes, o filósofo do “penso, logo existo.” Vejo o cultivo da dúvida como uma arma para proteger-se das notícias falsas e das propagandas ludibriantes. Neste ano eleitoral, essa guerra de desinformação vai atingir proporções incalculáveis.

Conheci um senhor aposentado, bem aceito na comunidade, que tinha um hábito irritante de duvidar de tudo que lhe diziam. Com um sorriso maroto, após comentarmos sobre algum assunto, ele retrucava: “E você acredita nisso?”

Não é dessa dúvida insistente que me refiro, mas daquela racional, argumentativa, cautelosa. A dúvida que não apenas nega, mas investiga, que busca a antítese.

Outra evidência que surge para armazenarmos resistência à massificação manipulada é a leitura. Sem ler, o indivíduo fica com a mente embotada, sem a postura transitiva necessária para entender a dinâmica dos fatos, da vida e dos artefatos que sedimentam a razão desumana.



Lourival Serejo

     Lourival de Jesus Serejo Sousa nasceu na cidade de Viana, Maranhão. Filho de Nozor Lauro Lopes de Sousa e Isabel Serejo Sousa. Formou-se em Direito, em
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