NAS ASAS DA ANSIEDADE

Não é mais notícia dizer que estamos vivendo na era da ansiedade. De crianças a idosos, todos estão padecendo desse mal ou são vítimas da ansiedade alheia. E o tema não é tão novo assim. Recentemente, encontrei um livro da década de sessenta do século passado que já alertava sobre esse mal, como se fosse um problema daquela atualidade.

Dentre os efeitos da ansiedade está o imediatismo. Ninguém tem mais paciência de esperar, seja no trânsito, seja em casa, seja numa conversa quando o interlocutor divaga em detalhes. Em qualquer circunstância exige-se a imediata conclusão, o imediato desfecho, tudo numa urgência permanente a impulsionar nossos passos.

Esse imediatismo se reflete nas conversas das redes sociais, em suas diversas modalidades. Os usuários participam do diálogo até onde lhes convém. Se não, encerra-se com um clique e passa-se à procura de outro parceiro. Das notícias, só interessa a migalha das manchetes. Não interessa ler a reportagem completa.

Essa hiperconectividade também é um efeito da ansiedade. A busca nervosa por um ambiente ideal, por um diálogo, por uma informação ou desinformação que alimente as preferências de cada um. Aliás, tal facilidade de encontros está acabando com as conversas pessoais. Reparem os jovens, onde estiverem: nas ruas, em casa, nos restaurantes, em sala de aula, em qualquer lugar, isolam-se no celular e não se importam em buscar novas amizades presenciais. Mergulhados nos celulares não atentam para os outros. Já lembrei uma vez, nesta coluna, o que me disse meu amigo dom Hélio Campos: “Lourival, está mais fácil chegar à lua do que alcançar o próximo”.

Em palestras, tenho sentido esse fenômeno. Só a fala do palestrante não basta para fixar as mentes insaciáveis. Ouvem as palestras buscando novidades nos celulares.

E na leitura? Aí, então, o efeito da ansiedade é triste. A incapacidade de concentração está acabando com a leitura. Conheço pessoas que após o primeiro capítulo de um romance, ficam sem condições de continuar se não buscam logo o desfecho da trama lá no último capítulo.

Aquelas pausas que o leitor clássico fazia com a cabeça levantada, olhos distantes, não existem mais. Se o livro tiver muitas páginas, retro satanas. Se pedir um pouco mais de atenção, retro satanas.

E as visitas? Precisam ser avisadas e de curta duração para não atrapalharem o ritmo da casa alheia. Tenho um amigo, com quem tenho a liberdade de ouvir e dizer o que quiser, que ao marcar uma visita em sua casa, ele diz logo: “só quinze minutos”.

Por mais que possa parecer coisa de idoso, mas, nesse contexto, gosto de lembrar da nossa vizinha, lá em Viana, dona Delfina, que, ao aparecer na porta, de surpresa, sabíamos que seriam entre duas ou três horas de visita. Calma, sem qualquer resquício de ansiedade, dissertava sobre os assuntos com todos os rodeios. Não tinha vassoura atrás da porta que fizesse efeito. Como seria recebida dona Delfina nos dias de hoje, na casa de um ansioso?



Lourival Serejo

     Lourival de Jesus Serejo Sousa nasceu na cidade de Viana, Maranhão. Filho de Nozor Lauro Lopes de Sousa e Isabel Serejo Sousa. Formou-se em Direito, em
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