
| Realidade e ficção na vida do magistrado |
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Entusiasmado, abarrotado de teorias, repleto de esperanças, assim vai o candidato a juiz de direito enfrentar as provas do concurso. Estudou muito, está tenso, mas seus planos são maiores que tudo. Depois da aprovação, festeja com seus familiares o êxito alcançado; alguns pagam as promessas feitas pelos pais. Ainda ansioso - agora a ansiedade será uma constante em sua vida - espera a nomeação, com a novidade da comarca. Imagina como adaptar-se ao título de juiz de direito que, a princípio, lhe parece pesado demais. E com o Termo de Posse nas mãos, atira-se ao destino; cruza, indeciso, o Rubicão e, a partir daí, é “um doido lutar por terra alheia”.1
Cada comarca é uma aventura, é um desafio, é um começo, com planos, gentes e problemas diferentes. Ali, naquela cidade, onde nunca esteve antes, vai o magistrado tratar com as mais diversas pessoas, julgar réus desconhecidos, viver com a família numa comunidade estranha: pelos costumes, pelo clima e pelas características. Até seus filhos vivem o condicionamento da função paterna. O filho-do-juiz é visto e tratado como uma criança diferente das outras, o que lhe traz vantagens e desvantagens. O juiz convive intensamente com a sociedade, julgando os atos de alguns dos seus membros; em contrapartida, essa mesma sociedade julga seu comportamento, analisa seus hábitos, mede sua competência. Debate-se o magistrado, logo ao chegar, com a falta de condições materiais favoráveis ao seu trabalho. Os oficiais de justiça disputam os mandados mais promissores, em detrimento dos postulantes pobres. Os advogados peticionam e peticionam, no afã de bem defender seus clientes, às vezes querendo atropelar o magistrado para alcançarem seus objetivos. E, assim, de caso a caso, de processo em processo, desenvolvem-se os tormentos do magistrado. Vem a tensão de julgar. O dilema das decisões. Na primeira entrância, por onde começa, ele é o juiz de família e sucessões, da infância e da juventude, das causas cíveis e criminais, presidente do tribunal do júri e juiz eleitoral. Presidirá várias audiências por dia, ouvindo partes, advogados, promotor de justiça e peritos; decidirá sobre o patrimônio, a vida e a honra das pessoas; aos fins de semana, quase sempre, estará às voltas com aquele processo mais complicado, que precisa de uma reflexão maior. Ocorre, também, que, seguidas vezes, responderá pela comarca vizinha se estiver vaga, se o colega estiver de férias ou de licença. E assim os anos vão se passando e as experiências e as esperanças aumentando. Mas, nessa dialética da função, nessa tese e antítese contínua, há um quê de compensação. É o entusiasmo do exercício da judicatura. É a dinâmica das relações humanas. É o privilégio, que talvez nenhuma outra função proporcione, de conhecer o homem em sua inteireza. É poder, depois de algum tempo, exclamar como Terêncio já o fizera antes: “nada que é humano me é estranho”. Cognominado de autor ou réu, de litisconsorte ou assistente, ou qualquer nome que a tecnologia forense empresta, está sempre ali o homem, com seus vícios e virtudes, sendo perscrutado pelo juiz, julgado por suas ações ou omissões.
Como professor de literatura, no ginásio da minha terra natal, sempre lembrava aos meus alunos, no primeiro dia de aula, que a literatura tinha o efeito de refletir os fatos da vida e da história com melhor motivação do que os documentos oficiais ou os estudos doutrinários, porque nos romances, nas biografias ou nos livros de aventuras, vive-se toda a emoção do momento descrito, sentem-se os impactos, imaginam-se as cores dos dramas, toma-se partido e sente-se o lado humano dos heróis e dos acontecimentos. Veja-se, a título de exemplo, alguns romances de Vitor Hugo (Os Miseráveis, por exemplo ) e Guerra e Paz, de Tolstoi, sem esquecer Os Lusíadas, de Camões. Em nosso tema de estudo não é diferente. Nas obras literárias em que aparece a figura do magistrado, deparamo-nos com a descrição informal da sua pessoa, quase sempre tratada ironicamente. Convém, também, observar os personagens dos livros que falam a linguagem e o entendimento do povo, aparecendo, então, muitas vezes, a inevitável opinião irreverente, chistosa, como esta encontrada nas divagações do Coronel Boaventura Andrade, personagem de Tocaia grande: “Assunto mais traiçoeiro do que a política só mesmo a Justiça. Por isso andam sempre juntas, de mãos dadas.”2 Antes de Jorge Amado, porém, Rui Barbosa, num momento de arrebatado idealismo e fé na Justiça , combatia aquele entendimento, para afirmar: “E, no Brasil, a política não tem lei. Mas há uma coisa, que se instituiu, para defender a lei contra a política: a magistratura”.3 São várias as situações, aqui destacadas, em que os romancistas pesquisados, todos da literatura brasileira, focalizaram a pessoa do juiz, titular de uma comarca do interior, dando primazia para o lado menos formal das suas atividades. Atentemos para algumas dessas passagens. No romance Terra de Caruaru, de José Condé, aparece a figura do doutor Taveira que, pouco a pouco, começou a se envolver com a reação da população aos desmandos do chefe político Ariosto. Este, sozinho, no meio da noite, fica cismando estas ideias contra o juiz da comarca:
E essa ameaça, tecida com persistência, na mente do chefe Ariosto, logo se concretizou:
Ainda, em Terra de Caruaru, descreve o autor um pedaço daquele drama familiar, muito vivido pelos magistrados nos seios de suas famílias:
Esse mesmo drama surge em cores mais vivas e íntimas, pelo desabafo de Dona Valentina, mulher do doutor Quintiliano do Vale, na obra Incidente em Antares, de Érico Veríssimo. Diz a esposa do magistrado, em estado de ira doméstica:
Em Fogo Morto, José Lins do Rego mostra o ambiente violento em que se debate o doutor Samuel, vítima das truculências do tenente Maurício: “Aqui nesta m...mando eu. Apareça Juiz, apareça o diabo, para ver o que eu faço.”8 Ressalta o autor, tanto nessa obra como em Os cangaceiros, o envolvimento do juiz com o grupo político da oposição, pretendendo usar sua autoridade para organizar uma espécie de resistência. No livro Coronel, coronéis, Marcos Vinícius Vilaça e Roberto de Albuquerque contam-nos o drama do juiz Antônio Correia de Araújo que, nomeado titular para a comarca de Serrita, em Pernambuco, se pôs a contrariar o coronel Chico Romão e ficou por não ter quem lhe lavasse a roupa ou lhe desse ao menos de comer ou beber. Depois desse boicote, o magistrado ainda tentou levar de Salgueiro, onde passou a morar, o seu farnel diário. Despachava os processos e voltava rápido. Mas não aguentou muito tempo, “porque dois judiciários não cabiam em Serrita,” na expressão dos autores.9 Ninguém melhor do que Mário Palmério retratou o ambiente, as angústias e as ciladas a que está sujeito um juiz eleitoral em ano de eleições, por este vasto território brasileiro, ainda repleto de filhos ou netos de coronéis, todos saudosistas do tempo do mando-quero-e-faço. E o juiz eleitoral enfrenta tudo, isolado em suas resoluções, amado e odiado, sofrendo os efeitos de suas decisões. Em Vila dos confins, ressalta o autor a figura do “grande e integérrimo juiz”, o doutor Braga, que nem por isso deixava de sofrer estas aleivosias levantadas pelo personagem Antero: “Mas o senhor sabe: quem manda no Juiz de Direito de Santa Rita é o Dr. Osmínio; no Juiz, no promotor, naquela cambada do Forum.”10 Mas, diante dos fatos armados, a reação do juiz eleitoral foi enérgica, agredindo o doutor Osmínio com esta advertência: “Meu dever é presidir o pleito com honradez e o máximo de segurança. Não vou estragar meus trinta anos de magistratura. Proteste, recorra, se quiser.”11 Em uma de suas mais conhecidas obras, São Bernardo, Graciliano Ramos alude, de vez em quando, à figura do doutor Magalhães, que sempre se gabava de ser apenas juiz e não conhecer mais nada:
Que personalidade terá o juiz segundo a visão de Nelson Rodrigues? Como esse “anjo pornográfico”, tão bem biografado por Ruy Castro, pode retratar um juiz? Evidentemente que terá que ser fiel à característica dos personagens que ele criou ao longo da sua vida literária; aqueles personagens que vivem todos os vícios e virtudes da espécie humana. Vestindo essa roupagem própria é que surge a figura do doutor Odorico Quintela, lá do interior do Espírito Santo, filho de mãe solteira e magistrado no Rio de Janeiro, senhor e possuidor da mentalidade do “sabe com quem você está falando?” e que confunde sua própria pessoa com o Poder Judiciário. Com essa ideia fixa é que agride um taxista que não queria levá-lo a um lugar distante:
Ao final da corrida, reclamou do preço e não pagou a conta; amedrontado, o motorista acabou dispensando. “Graças a Deus, todo mundo tem medo do Judiciário... Ninguém está livre de um processo. Ia acrescentar: - “Nem Jesus Cristo”, mas contornou a irreverência. O Judiciário era o Medo Original do homem.”16 Vale a pena continuar acompanhando os principais lances desse magistrado que, aos 52 anos de idade, casado há mais de vinte, apaixonara-se por Engraçadinha, casada também, e cuja paixão tornou-se comentário de todo o Forum. Com o lema “eu tenho que ser desembargador de qualquer maneira”17 , o doutor Odorico definia assim a função:
O doutor Odorico sentia-se como o Judiciário ambulante, até ao sentar-se num táxi tinha essa sensação de que ali estava o próprio Poder Judiciário, adulado por todos e representado por ele. Bêbado, após um entrevero com o filho da sua amada, dizia a um amigo: “ Bebi, sim. Hoje, o Judiciário está bêbado.”[20] Jorge Amado, o grande escritor baiano, já invocado, em seu livro Tereza Batista, cansada de guerra, trata de uma situação delicada, que incomoda muitos juízes: “O juiz, novo na comarca, a família na capital, impossibilitado pelo cargo de frequentar mulher-dama, buscava rapariga para quem montar casa...” Com esse drama para resolver, o magistrado confidencia ao capitão: “Agora veja o amigo: na posição de juiz de direito, não lhe fica bem frequentar casas de mulheres, ruas suspeitas, enfim... o capitão compreende a situação delicada”. [21] Refere-se o autor ao doutor Eustáquio que, para resolver seu problema, adota uma teúda e manteúda, em lugar discreto, e com a conivência e o respeito dos moradores. Em outra passagem da mesma obra, o autor fala de outro juiz, o doutor Pio Alves, que “de raiva e inveja fez-se honesto”22. Segundo descreve Jorge Amado, o doutor Pio era daqueles juízes solenes,
Mais recentemente, Josué Montello, em Uma varanda sobre o silêncio, traz à baila um magistrado preocupado com o momento político do país e sentindo, de perto, as consequências do terror, da repressão ideológica e a situação do seu cargo diante dessa força. É o doutor Romualdo, que assim desabafa:
E segue-se esta respeitável lição de aplicação do direito:
Na literatura brasileira contemporânea, temos o romance de Marcelo Carneiro Cunha, O nosso juiz, em que o autor narra a experiência de uma cidade do interior do Rio Grande do Sul, na década de 60, que fez uma campanha intensa para ter um juiz, não porque precisasse, mas para não perder para a cidade vizinha, que acabara de ganhar um. A mesma população que quis um juiz assustou-se com sua atuação na comarca, pois queriam apenas uma figura decorativa de magistrado. Destaco este desabafo de uma moradora da comarca para o juiz: “As pessoas aqui, juiz, elas não estão prontas para o senhor. Elas não querem nada de lei, de justiça, nada que venha de fora. […] O que elas querem com um juiz? Só quiseram um porque Campos ganhou o deles. O senhor entende isso?”25
Assim, nesses breves enfoques, reais e fictícios, das experiências em que se envolveram figuras de vários magistrados, tivemos uma visão geral, literária, da vida de um magistrado, dos seus dramas familiares, das suas fraquezas e reações. É conhecida a declaração de Engels e Lênin de que teriam muito mais aprendido sobre a sociedade francesa do século passado com A comédia humana, de Balzac, do que com qualquer sociólogo. Da mesma forma, esses pequenos tópicos dos nossos romances atuais, misturando realidade e ficção, permitem formar uma ideia da figura e da crise existencial de um juiz, principalmente do juiz das primeiras entrâncias, de comarca em comarca, como uma excelência discreta, quase sempre desconhecida, mas carregando nos ombros o peso das suas atribuições e de seus problemas particulares. E para encerrar esta pesquisa, aproveito um trecho de um artigo de Marcos Vinícius Vilaça, O Judiciário e a Literatura, publicado no Correio Braziliense (ed. de 30. 05.94), na qual reproduz esta breve história:
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| Última atualização em Qui, 25 de Fevereiro de 2010 18:03 |


