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Nem jacaré nem lobisomem PDF Imprimir E-mail

Os tempos mudam os costumes, a arrumação das coisas, os pensamentos e até os ditos antigos havidos como certos. Antes, em brincadeiras nos colégios ou em festas dançantes, sempre surgia um pretexto para aplicarmos o aforisma  que sentencia: Mulher com mulher dá jacaré.

Recentemente estive em São Paulo e, ali, deparei-me pela Avenida Paulista ou pelos shopping centers, com vários casais de namoradas, aos abraços e beijos. Mas não eram só moças com moças, mas rapazes com rapazes. Os passantes nem sequer voltavam a cabeça para confirmar a cena. Tudo era normal. Nada surpreendia ninguém.

Se meu avô visse aquelas cenas – aliás, não é preciso ir tão longe, se meu pai visse aquelas cenas – com certeza ficaria chocado e concluiria que estávamos no fim do mundo.

Sem desconsiderar esses dados, a verdadeira inspiração para esta crônica não foram essas cenas da vida moderna, mas a recente decisão do Superior Tribunal de Justiça  em reconhecer o direito de um companheiro do mesmo sexo receber a previdência privada que fora deixada pelo falecimento do seu parceiro.

No momento em que o Superior Tribunal de Justiça reconheceu a união de pessoas do mesmo sexo como uma entidade familiar, empurrou o direito um passo à frente para o encontro com a realidade que latejava há muito na sociedade, pedindo pelo reconhecimento devido.

O direito não pode contrapor-se aos fatos, sob pena de ficar isolado no tempo, principalmente em se tratando de relações familiares.
A sociedade não pode mais condenar as pessoas por suas preferências sexuais e, sim, compreendê-las, sem qualquer discriminação.

O Superior Tribunal de Justiça é o segundo tribunal superior que reconheceu a convivência de pessoas do mesmo sexo como entidade familiar. O primeiro foi o Tribunal Superior Eleitoral, ao reconhecer a união estável entre pessoas do mesmo sexo, quando julgou o caso oriundo do Pará referente a uma candidata que tinha um relacionamento homoafetivo com a prefeita do município de Viseu.

Aluísio Azevedo foi, talvez, o primeiro escritor brasileiro a tratar desse tema num romance,  precisamente na sua obra mais famosa, “O cortiço”. Ali desponta o amor entre Pombinha e Lèonie como uma das formas atrevidas de relacionamento que o autor aborda em sua obra. Para aquele momento (1890) foi uma ousadia que só o Naturalismo do autor estimulava.

Mas, hoje tudo mudou.

Com certeza, os novos costumes, as novas cabeças, já revogaram aquele antigo e preconceituoso provérbio popular. Agora, mulher com mulher não dá mais jacaré. E não fica só nessa conclusão porque, em contrapartida, na linha da igualdade, homem com homem não dá mais lobisomem.

Última atualização em Qui, 25 de Fevereiro de 2010 17:20