
| Padre Eider |
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Neste ano, sobrou um cartão de Natal no meu pacote de remessa. Era o cartão destinado ao meu velho amigo Eider, que fora passar as festas natalinas nas alturas, ao encontro de quem tão bem representou na terra. Preferia tratá-lo como era mais conhecido, dispensando-lhe o título honorífico de monsenhor. Minha amizade com padre Eider data de muitos anos, desde meus tempos de estudante, em São Luís. Muitas vezes, vivendo as angústias da idade, era no Seminário Santo Antônio que eu ia buscar auxílio, conversando com ele, falando besteiras e sempre sendo ouvido com atenção. Essa era a grande marca do padre Eider para cativar as pessoas: a atenção. Para qualquer pessoa, a qualquer hora, ele estava atento, disponível e solidário. Convivi com os dois momentos históricos da vida do padre Eider: antes e depois do papa João XXIII, que fez a grande renovação da Igreja pelas inovações do Concílio Vaticano II. Com a chegada de D. Hélio, seu espírito já renovado encontrou apoio para expandir-se. O primeiro Eider era um padre tradicional, apegado aos dogmas seculares da Igreja; o segundo foi o sacerdote que eclodiu como um vulcão depois que se conscientizou do verdadeiro papel de um sacerdote nos países do Terceiro Mundo. Para esta segunda fase, muito contribuiu o curso de aggiornamento (renovação), que fez no Rio Grande do Sul. O novo Eider encontrou em Dom Hélio Campos o amigo que o estimulou a seguir os rumos da Teologia da Libertação, que tem Cristo como centro de ação em favor dos oprimidos e pela igualdade de oportunidades na terra, apontando-lhes a esperança libertadora. Quando D. Hélio chegou a Viana como bispo, padre Eider estava como sacerdote em uma paróquia de São Luís e era professor. Ao apelo do novo bispo ele não resiste e volta, em 1970. Em sua carta Meus 25 anos de padre, ele fala com eloquência dessa decisão: “Voltei por ver e sentir que era um dever. Quando vi Dom Hélio enfrentando o colonialismo que aqui estava instalado com unhas e dentes, debatendo-se por levar a Igreja de Viana a ter características próprias e empenhar-se na verdadeira libertação do povo, não tive dúvidas, voltei. Vim cerrar fileiras ao seu lado, já como índio velho, expulso de sua aldeia e quase sem forças, mas ainda disposto a lutar e ir até às últimas consequências para ajudar a se restabelecer a verdadeira feição da Igreja em Viana e da Igreja particular de Viana.” Todo vianense que conheceu padre Eider pode testemunhar a dedicação da sua vida à fé que abraçou, ao sacerdócio que exerceu com vocação, de forma íntegra, sem dobras nem baixos. A vida de padre Eider foi um livro aberto de ética, de compromisso e de solidariedade. Em sua casa, recebia os estudantes em busca de informações sobre a história de Viana e qualquer outro assunto. Quem estivesse escrevendo algum trabalho ou livro sobre Viana necessariamente teria que consultar padre Eider para tirar dúvidas ou ouvir uma sugestão. Sempre prestativo, ele nunca deixava de atender ninguém. Eider, Heitor e Cordeiro formaram um trio de jovens sacerdotes que, sob as bênçãos de Monsenhor Arouche, serviram diversas paróquias da Baixada Maranhense, fazendo desobrigas quando não tínhamos estradas, levando conforto espiritual a muitas e muitas pessoas. Espero um dia publicar um trabalho que fiz de entrevistas com esses três vianenses e que intitulei Quando os padres confessam. O material escrito deixado pelo padre Eider é vasto. A família dele ou a Academia Vianense de Letras deve encarregar-se de reunir todos esses escritos para uma publicação. No início desta homenagem invoquei D. José Delgado, em trecho tirado de sua Carta a um amigo excomungado, dedicada ao padre Eider. Nesse documento, aquele arcebispo se solidariza com o amigo pelo período crítico que atravessou em sua vida, e mostra os novos rumos da teologia, depois do Vaticano II. Padre Eider não era só vianense; era universal. Em todo o país e no exterior, por seus amigos, expandiu sua fé e seus princípios, com a vivacidade que o mantém vivo na memória de seus conterrâneos e admiradores. Não lhe mandei um cartão de Natal, mas restou sua lembrança para renascer em mim o entusiasmo de viver sempre para lembrar seu sorriso e sua maneira de dialogar, apoiar e indignar-se quando era necessário. Em seu nome, vamos continuar pregando seu Evangelho de amor, solidariedade, ética e libertação.
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| Última atualização em Seg, 22 de Fevereiro de 2010 17:27 |


