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A liberdade pela poesia PDF Imprimir E-mail
Escrito por Lourival Serejo   

Recentemente fiz uma visita à Penitenciária de Pedrinhas, como diretor da Escola Superior da Magistratura do Maranhão, com o propósito de conhecer a biblioteca daquele estabelecimento prisional e as salas de aulas que ali funcionam.

Na biblioteca, indaguei aos responsáveis sobre a procura de livros pelos detentos e a preferência de leitura. Na verdade, buscava apenas uma confirmação para o que imaginava saber, apostando que todos deviam procurar por livros de aventuras em todos os sentidos. Afinal, ali estão  segregados homens que violaram um código de conduta social, aventurando-se em atitudes ousadas contra a sociedade.

Para minha surpresa, fui informado pelo encarregado da biblioteca de que a preferência dos presos é pelos livros de poesia. Nunca imaginei que presos condenados tivessem a sensibilidade de procurar livros de poesia como opção de leitura.

Essa revelação dos presos desafia uma interpretação mais profunda, pois não se esgota numa simples preferência. A poesia aparece aqui como construção libertadora, em que os presos se identificam com o poeta para imaginarem um paraíso distante e diferente do inferno em que se encontram.

Daí, então, eles passam a viver dois momentos: o real, palpável, que é a circunstância em que vivem; e o outro, que a poesia lhes permite dar asas à imaginação em busca da liberdade, do aconchego da família, da rua etc.

Essa possibilidade, que a poesia sugere de se viver nessa simbiose entre o real e o imaginário, deve propiciar uma fuga, um refúgio benéfico à vida dos presidiários. Nesse sentido, se fosse  possível orientá-los nessas leituras, imagino quantos escritores ou leitores críticos poderiam surgir desse meio, quantas capacidades intelectuais poderiam manifestar-se.

Quando Manuel Bandeira imaginou sua Pasárgada, atendeu o desejo interior que o perseguia de buscar uma utopia onde não houvesse seus problemas, sua tuberculose e onde ele fosse uma pessoa respeitada por ser amigo do rei e ter seus desejos atendidos.

Assim, os recuperandos de Pedrinhas buscam  uma utopia que os desloquem daquele centro de alienação e medo para um lugar de paz, em que não serão cobrados pelo que fizeram ou deixaram de fazer.

Essa conclusão é confirmada pela própria expressão da poesia de um ex-detento, Assis Nobre, ao registrar em seu poema Poesia: Prazer em ler e escrever/ obras que traduzam/emoções que calam fundo/sentimentos da alma e coração/inefáveis sabores astrais/amor suave a emanar.

Um desconhecido biógrafo de Humberto de Campos, Macário Picanço, ao falar da poesia daquele escritor maranhense, traz este conceito, que se amolda às condições dos recuperandos de Pedrinhas: “A poesia é a confidente dos que sofrem, a companheira das vidas tristes.”

Como fuga ou como conforto, a preferência daqueles homens pelos livros de poesia serve de alerta às autoridades, inclusive judiciárias, de que ali, mesmo culpado pelos mais diversos crimes, existem pessoas, tão humanas quanto nós, na proporcionalidade de nossas diferenças, pelo que merecem atenção e reconhecimento das suas peculiaridades.

 

Última atualização em Ter, 25 de Agosto de 2009 20:56